A política de desgoverno e a violência obstétrica
Somos bombardeados todos os
dias com notícias envolvendo medidas inescrupulosas para acabar com os direitos
da população brasileira. Os cortes na saúde, os ataques contra o direito a
aposentadoria digna, contra a educação pública superior e básica, contra a
ciência, são reflexos da falta de preparo e de responsabilidade de quem governa
o Brasil.
Nesta semana o Ministério da
Saúde, que também quis participar das manchetes de horror colecionadas nos últimos
4 meses pelo governo federal, resolveu atacar as mulheres brasileiras com sua
declaração de que o termo “Violência Obstétrica” não agrega valor e deverá ser
descontinuado. Como o tema foi título da minha postagem anterior aqui no blog, me
senti na obrigação de falar a respeito.
O momento do parto deve ser
protagonizado pela mulher, mas não é a regra. A regra são profissionais da
saúde despreparados, a regra é a utilização de frases como “Na hora de fazer
não reclamou” ou “Deixa de ser mole, escandalosa” ou “Seu bebê pode morrer por
culpa sua”. A regra são cesáreas desnecessárias, episiotomia, ponto do marido,
ocitocina artificial para acelerar o que deveria ter seu próprio tempo, etc.
Diante desta triste realidade
somos obrigadas a viver no mesmo universo onde existe um despacho dizendo que o
que não agrega valor é o termo usado para denunciar estas medidas cruéis e
violentas.
O Ministério alega que o termo
não é adequado porque os profissionais da saúde não têm intenção de violar,
independente do resultado produzido. Realmente, deve ser possível torturar uma gestante,
parturiente ou puérpera, física ou psicologicamente, sem querer. Para eles,
gritar com a parturiente não é um ato intencional, por exemplo.
Até então o Ministério definia
a Violência Obstétrica como aquela sofrida pela mulher de forma física ou psicológica,
verbal, simbólica e/ou sexual, além de negligência, discriminação e/ou condutas
excessivas ou desnecessárias ou desaconselhadas, muitas vezes prejudiciais e
sem embasamento em evidências científicas.
Apesar da ciência desta
definição, o atual ministro alega que o que prejudica a busca pelo cuidado
humanizado no continuum gestação-parto-puerpério é o termo: Violência Obstétrica. O Ministério não está
preocupado com as mulheres agredidas ou com aquelas que ainda podem vir a
sofrer.
Não existe preocupação para
que não haja a proibição de acompanhante. Já comentei aqui que passei 5 HORAS
na sala de recuperação no hospital com um gêmeo em cada braço e sozinha porque
me negaram o direito a companhia do meu marido, o que talvez eu não disse foi
que meu braço formigou e eu tive que gritar várias vezes por socorro porque o
bebê poderia cair no chão.
Eles não estão preocupados com
os reflexos que a violência sofrida durante o parto pode gerar no puerpério. A
depressão pós parto pela culpa, as dificuldades na aceitação que podem
complicar o desenvolvimento de um vinculo saudável e os problemas com o aleitamento
materno.
A luta contra o que era
chamado pelo Ministério da Saúde – e que vamos continuar chamando – de VIOLÊNCIA
OBSTÉTRICA não começou hoje e não está nem perto de acabar. Agora temos mais um
obstáculo. Um obstáculo que, assim como as declarações irresponsáveis do
Presidente da República sobre violência legitimaram violência, agora legitima,
para muitos profissionais da saúde, a continuidade dessas práticas degradantes
contra a mulher.
"(...) Querem tapar
O sol com a peneira
Querem calar nossa maneira
De brincadeira
Aqui ninguém tá." OTM
Sororidade,
Cìntia.
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