Violência Obstétrica

                                             

Escolhi o tópico “Violência Obstétrica” para abrir as discussões no blog por vários motivos. Mas principalmente porque foi através de vários atos violentos que eu nasci mãe. Gosto de pensar que o nascimento do bebê não pode ser colocado, exclusivamente, como ponto alto do evento. Não podemos esquecer do nascimento da mulher como mãe.

Quando uma mulher decide ou aceita a maternidade (e essas escolhas devem ser baseadas no desejo genuíno de gerar e criar uma criança e não por pressões sociais de desigualdade de gênero) ela, desde o primeiro momento, passa por várias transformações. Tem aquelas mais visíveis ligadas ao corpo, mas também existem algumas transformações internas, emocionais.

Quando eu soube que seria mãe do Lucas eu vivi uma montanha russa de sentimentos, tive medo de muitas coisas, mas apesar de ouvir muito sobre desrespeito e ter noção da sociedade doente na qual estou inserida, não me preocupava em ser violentada. Eu me preocupava em não ser enganada e por isso lia muito sobre tudo o que eu conseguia.

Eu, uma menina que falava aos 8 anos que certamente teria filhos por meio de intervenção cirúrgica por medo do que era natural, busquei me convencer de que esse medo era fundado apenas em filmes de Hollywood e histórias de quem também foi reprimida. O fato é que toda mulher gestante pode parir naturalmente, salvo algumas situações onde a cesariana é indicada. Segundo a enfermeira Idauana Feuser A. Vicente Poffo, algumas das indicações são hemorragias, sofrimento fetal, bebê transverso, síndromes gravídicas, bebês que tenham algum problema de saúde, esses casos são minoria. E complementa ainda:

Mesmo sabendo disso, o Brasil é o segundo país com maior taxas de cesárea do mundo. A porcentagem desse tipo de parto no nosso país, chega a alarmantes 55,5% a despeito da recomendação da Organização Mundial da Saúde de que essa taxa seja de, no máximo, 15% considerando o índice de gestações de alto risco. Cesáreas desnecessárias são realizadas todos os dias no Brasil, colocando em risco a saúde de mulheres e de seus bebês. Por consequência disso, índices de prematuridade se elevam, os bebês são privados da exposição à processos hormonais, físicos e bacterianos que passariam através do processo de parto natural, o que pode afetar sua saúde. Além disso, o risco para as mães também é maior, visto que tem que se recuperar de uma cirurgia abdominal e estão expostas a seus riscos – infecções, hemorragias, alergias à anestesia/medicamentos. Também nas gravidezes subsequentes o risco de gestação ectópica se eleva, desenvolvimento anormal de placenta, entre outros.

Outro ponto relevante é que mesmo dentro da porcentagem dos partos vaginais, a violência está presente. A maior parte das mulheres mães que eu conheço relatam alguma violência obstétrica, tendo sido submetidas a cesárea ou não.

A partir desses dados, precisamos levantar o questionamento. Por que as mulheres sofrem violência obstétrica? As discussões acerca do tema são recentes, mas podemos encontrar respaldo histórico no Brasil Colônia, onde a misoginia da época colocava a condição de mãe como o ponto mais alto da vida da mulher e onde a Igreja santificava as mães, conforme explica Emanuel Araújo no texto publicado no livro História das Mulheres no Brasil, no momento em que a mulher engravidava ela se afastava de Eva e se aproximava de Maria. Explica, ainda, o autor:

Porém, a mulher não podia exercer sua maternidade em paz. Os médicos homens logo entravam em cena para diminuir o brilho do milagre e do mistério da fecundidade e para dizer à mulher que ela continuaria dependente do saber, e do poder, masculino. Eles procuravam entender, explicar e catalogar o que a mulher sabia e fazia com naturalidade, apoiada em uma experiência ancestral. Mapeavam o corpo feminino e um tanto desnorteados e desastrados, inventavam interpretações para o funcionamento e para os males da vulva, da menstruação, do aleitamento, do útero, com as respectivas prescrições.

Infelizmente, o tempo passou, mas essa tentativa de dominação masculina apenas foi ainda mais enraizada. Seguem algumas modalidades de violência sofrida por mulheres a cada minuto:

-Os hospitais induzem, em muitos casos de forma desnecessária, o nascimento das crianças por meio de ocitocina intravenosa;

-Profissionais da enfermagem e o corpo clinico no geral exigem que mulheres passem pelo trabalho de parto em silêncio;

-A presença do acompanhante que hoje no Brasil é garantido pela lei LEI Nº 11.108, DE 7 DE ABRIL DE 2005, e deve acontecer durante o trabalho de parto, parto e pós parto imediato, muitas vezes é negado (me foi negado duas vezes, na segunda eu passei 5 horas na sala de recuperação com um bebê em cada braço – eu tenho gêmeos – e completamente desassistida, apesar de nossa furiosa insistência para que houvesse o cumprimento da lei);

-Mulheres são submetida a cesáreas desnecessárias e indesejadas e sob todo o tipo de argumento sem fundamento;

-Muitos hospitais ainda não aceitam seguir o que está escrito nos planos de parto da mulher, não gostam e criam caso quanto a presença da doula;

-Para o caso dos partos vaginais a episiotomia tem sido a regra;

Conversando com uma amiga querida, mãe e Doula, Mônica Matzenbacher, ela lembrou que muitas vezes essa violência é velada. Gostaria de compartilhar com vocês o relato que ela escreveu para mim, baseado no que já viveu enquanto profissional:

"Há um tipo de violência obstétrica muito sutil, que as vezes passa despercebida porque não vem com gritos ou xingamentos. Ela é feita muitas vezes com sorriso no rosto, talvez uma mão no ombro e apelidos “carinhosos”, como MÃEZINHA, GRAVIDINHA e muitos inhas. Mas que violência é essa? O código de ética médica, no artigo 13 cita: “ Deixar de esclarecer o paciente sobre as determinantes ambientais, sociais ou profissionais de suas doença.”
Em outras palavras, se você foi submetida a um procedimento sem uma explicação exata do porquê. Essa conduta por parte do profissional de saúde é o mesmo que atestar que a gestante/parturiente é incapaz de entender o que será feito no próprio corpo e sendo assim o profissional toma a liberdade de decidir sobre um corpo que não o pertence . Como doula é algo que vi em hospitais particulares, um tratamento que soa humanizado na voz, mas não olha a mulher no olho e a explica o que se passa, por muitas vezes a coage da forma mais covarde : Se você não fizer o que estou dizendo seu filho vai morrer!
Que violência é essa que já alcança e ameaça um ser que ainda não nasceu? Dica: Não existe emergência pra daqui uma hora, um dia, etc. Emergência é pra agora, já, nesse segundo.
E como tudo se relaciona com o feminismo? Se você não estudou enfermagem ou medicina não está habilitado para executar procedimentos médicos. Mas, tem plena capacidade de ler, estudar sobre o corpitcho que você tem desde que nasceu e entender e poder dialogar sobre suas opções e questionar se achar devido. Quer ver como se relaciona com machismo? Pergunta pra um homem se ele deixa cortarem partes do aparelho reprodutor dele de boa, no estilo, ‘não entendi o motivo, mas o médico disse que precisava’.  O empoderamento pode começar antes da gestação, durante ou mesmo após, mas quando ele começar vai trazer junto a certeza de que nossos corpos, olha só, que descoberta, SÃO NOSSOS! E que devemos sair debaixo da infantilização que nos colocam de não sermos aptas a decidir sobre nós mesmas. Você é você há quantos anos? Não deveria ser então você a pessoa que melhor se conhece?”

O momento de maior fragilidade da mulher é, na maioria dos casos, regado de irregularidade e violência. A mulher é tratada sem qualquer respeito ou dignidade. Não podemos ignorar o quanto esta é uma problemática feminista e que só existe porque vivemos em uma sociedade misógina que não aceita a mulher como protagonista do nascimento do filho. Uma mulher não pode, vendo pela lente excludente, sequer ser tratada com humanidade.

Fui parturiente por duas vezes, tenho três meninos, eles são lindos e nasceram muito saudáveis. Infelizmente, das duas vezes, o meu nascimento como mãe não foi saudável. Da primeira vez estive nas mãos de profissionais despreparados e impacientes e apesar de todo o conhecimento acumulado e de toda a certeza de que eu não seria enganada, eu fui. Na segunda vez, eu achei mais uma vez que estaria preparada e que seriamos fortes e não tivemos força.

Eu escrevo sobre isso hoje porque não temos força frente aos problemas sociais de discriminação de gênero, sozinhas. Precisamos umas das outras, uns dos outros. Mulheres mães ou mulheres que sequer têm o desejo da maternidade. Chamo para essa briga também os homens. Todas, todos, todxs. Por condições mais humanas de nascer mãe.

Sororidade!

Escrito por Cíntia Andrezzo.

Comentários

  1. Cíntia, não sei se você já leu, mas no livro "Calibã e a Bruxa" a autora mostra por meio da pesquisa historiográfica que ela fez como as mulheres foram sendo excluídas do momento do parto. Na Europa da idade média, as gestantes em trabalho de parto ficavam cercadas por várias mulheres que dividiam seus conhecimentos passados de mãe à filha e também existia a imagem da parteira. O patriarcado foi excluindo a parteira da equação para incluir o médico (homem), e tirar o poder que as mulheres tinham sobre o próprio corpo. É bem interessante o tema, parabéns pelo texto!

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Ju! Acredita que ainda não li? 😫 Vou dar prioridade! Obrigada pelo teu comentário! Precisamos entender como a nossa sociedade chegou no que temos hoje e pelo visto o sangue de muita mulher foi derramado para o estabelecimento e fortalecimento do patriarcado!

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